sábado, abril 09, 2016

Hipócritas q.b.

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Escravo angolano aguardando transporte para as roças de São Tomé e Príncipe (fonte)

Ainda não percebi se a hipocrisia que não raras vezes domina a sociedade portuguesa é uma característica que nos corre no sangue ou se é uma herança cultural do salazarismo, mas a verdade é que com grande frequência somos confrontados aquilo que somos e reagimos com grandes doses de hipocrisia. Veja-se o que aconteceu recentemente com um jornalista que se lembrou de escrever algumas coisas sobre o Alentejo, o livro foi apresentado sob fortes medidas de segurança, como se o Alentejo fosse só porco preto e cante.

O outro regime cultivava a cultura do pobres mas lavadinhos e até dava uma imagem de progresso proibindo o povo de andar descalço. Eramos o país onde as crianças iam à escola calçadas, um sinal de grande progresso, mas andavam quilómetros em caminhos de serra com os sapatos na mão, para não os gastar. Temos vergonha das nossas “vergonhas” e escondêmo-las, aliás, a palavra vergonha tem até um significado curioso, são as ditas partes que envergonham e por isso não devem estar à vista.
  
É por termos muitas vergonhas que até há pouco tempo as nossas sessões parlamentares eram interrompidas muitas vezes por dia, por deputados que pediam a palavra em defesa da honra. Somos um país de gente honesta, de empresários que não são competitivos por culpa dos trabalhadores, de banqueiros que só foram vigaristas porque os deixaram ser. 
  
Em Portugal não há nem nunca houve gente ao engate de meninos e adolescentes, daí a indignação com que reagimos ao Caso Casa Pia e decidimos pendurar os que estavam mais à mão. Em Portugal não há dezenas de mulheres mortas todos os anos e muitos milhares a viver um regime de terror diário. Em Portugal nunca houve pais que “tiraram os três” às filhas antes que fosse outro a ter tal privilégio.
  
Não, em Portugal somos todos lavadinhos muito honrados, empresários exemplares, tudo boa gente. Nunca fomos colonialistas tão maus como outros, fomos os grandes promotores do conceito de globalização mas não fomos nós que globalizamos o mercado dos escaravos, nem nunca fomos a “Arábia Saudita” desse ouro negro. Aliá,s os nomes dos nossos navios negreiros dizem muito sobre a nossa imensa bondade, “Amável Donzela”, “Boa Intenção”, “Brinquedo dos Meninos”, “Caridade”, “Feliz Destino”, “Feliz Dias a Pobrezinhos”. Só no “Feliz Destino” foram transportados 1139 escravos, desses 1035 foram desembarcados no Brasil e 104 tiveram como “feliz destino” a morte.

É por isso que neste país de gente pacífica e onde ninguém diz palavrões, nem onde ninguém foi maltratado pelas suas ideias ficamos escandalizados porque onde se dão tantas bofetadas de luva branca meio mundo ficou escandalizado porque o João Soares (político de quem não sou admirador) prometeu duas bofetadas. Curiosamente uma das vítimas assustadiças das perigosas bofetadas é alguém que anda à décadas a dizer mal de meio país e de quem uma ex-esposa escreveu bem pior em livro.

Somos um país onde o que se come em casa não se diz na rua, somos tesos mas exigimos como ricos, somos violentos mas andamos armados em pacificadores, matamos mulheres às dezenas e durante décadas isso quase era legítimo mas não nos cansamos de termos sido os primeiros a abolir a pena de morte, somos hipócritas q.b..

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