domingo, abril 24, 2016

Imagino que estejam na praia

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Flamingos voando nas salinas de Castro Marim

Ontem viajava do Algarve para Lisboa e em sentido contrário era uma verdadeira migração, pareciam a cena inicial do filme “A Idade do Gelo”, fugiam desarvorados do frio do norte em direcção às praias do Sul. Imagino-os a besuntarem-se em cremes com receio do escaldão, apesar do sol ser mais primaveril do de Verão. Comportamento estranho para alguém como eu, que nascido e criado junto às parias mais quentes do país sempre ouvi que este ainda não era tempo de praia.
  
Mas um corpo às riscas está na moda e pouco importa que a água do mar esteja fria, na próxima terça o nariz queimado será apresentado no emprego ou na escola como troféu de caça e um verdadeiro símbolo de riqueza, um pouco como era há uns tempos atrás ter uma offshore ou ser amigo do Ricardo Salgado. A cidade ficou vazia e se em condições normais Monsanto está às moscas, nestes dias ainda está mais.
  
Um estranho mundo o destes dias que vivemos, na minha terra onde uma alimentação à base de peixe e o muito andar a pé ou de bicicleta fazia as pessoas magras, vejo agora muitas jovens com níveis de obesidade já a roçar a obesidade mórbida, algo que nunca vi durante toda a minha juventude. Se o nível cultural dos estudantes do secundário é o mesmo que o dos se sentavam na mesa ao lado, na esplanada pergunto-me para quem investir no ensino. Algo está errado naquilo a que chamamos progresso. É um progresso que leva ao desemprego e à urgência hospitalar, um progresso que gera despesa sustentada.

Percorro a praias, os pinhais e o parque do Sapal de Castro Marim (tal como Alcoutim, antigo couto de homiziados) e Vila Real de Santo António e cruzo-me com muitas dezenas de idosos estrangeiros, gente com mais de sessenta e de setenta anos, a fazer caminhadas ou longos passeios a pé, com interesse pela natura e exibindo uma boa forma física. Os nossos idosos preferem ler o CM dos cafés ou ver os programas de gente distinta e bonita como os Gouchas e as Fátimas Lopes, enquanto se intoxicam em Calcitrim, controcem-se com as dores nos ossos ou gastam uma boa parte das parcas pensões no jogo ilegal com que as nossas estações d televisão, incluindo a pública, enriquecem os seus funcionários mais vistosos e ajeitam as receitas da publicidade, em queda depois da crise.
  
Será que os défices só podem ser combatidos com cortes na despesa ou que o desenvolvimento económico resulta de medidas de política económica, seja ela de estímulos ao consumo ou de promoção da escravatura, como preferia o governo de Passos Coelho? 
  
Mas enfim, receio que nada disto preocupe os portugueses que a esta hora estarão dando voltas em cima da toalha, para se queimarem do outro lado, como se fossem sardinhas, esse cheiro e consumo era no passado sinal de pobreza, mas que nos próximos dias não faltarão os que no emprego farão inveja aos amigos, assegurando que já as comeram gordas. Enfim, não tão gordas como muitas jovens da minha terra, mas tão gordas como  a nossa ignorância colectiva está a ficar.


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