Segunda-feira, Novembro 07, 2011

Negociar o inegociável?

O actual projecto de OE não corresponde nem de longe nem de perto às exigências da troika, não respeita nem a vontade, nem os desejos dos portugueses, foi feito nas costas dos partidos. É um OE feito segundo os critérios pessoais de um ministro fundamentalista, sem qualquer respeito pelos valores constitucionais, ignorando qualquer hipótese de diálogo, e se considerarmos que o único ministério a ver a despesa aumentar foi o das polícias percebe-se bem que a intenção era impô-lo aos portugueses nem, que fosse à bordoada.

Cavaco Silva já tinha denunciado as arbitrariedades e suscitou dúvidas sobre a possibilidade de encapotar um brutal aumento de impostos sobre um grupo profissional. O Tribunal Constitucional já se pronunciou sobre a inconstitucionalidade dos cortes arbitrários de vencimentos de funcionários públicos e ninguém tem dúvidas de que o corte dos subsídios poderia ser chumbado pelo mesmo tribunal.

Este orçamento não é negociável, nem o fundamentalismo económico de Vítor Gaspar merece qualquer negociação, nem é aceitável que um partido democrático aceite negociar medidas inconstitucionais. É um orçamento que se aprova ou que se chumba, que se tem a coragem de apoiar ou a frontalidade de reprovar. Negociar um subsídio não é fazer um favor aos funcionários públicos, é aceitar que a Constituição não se aplica às leis do Orçamento.

Compreende-se que Miguel Relvas dê a cara, protegendo a imagem do ministro das Finanças, mas a sua doçura não resulta de uma vocação para o diálogo, mas sim da percepção de que com este OE o governo estava a conduzir o país para um beco sem saída e, muito provavelmente, para a sua ruina.

Vítor Gaspar fez um mau orçamento, nem foi capaz de o fazer acompanhar de projecções macroeconómicas denunciando que no governo não há previsões para a dimensão do desastre de 2012. Fez um orçamento no pressuposto de que em Portugal não há democracia ou que esta deve estar condicionada às suas ideias de como deve ser o futuro do país.
 
A democracia e a Constituição não são negociáveis, este OE é inegociável.

Umas no cravo e outras na ferradura




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Sintra
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"Se é porco..." [A. Cabral]


A mentira do dia d'O Jumento
 
  
Jumento do dia


Francisco Assis

Parece que a moda no PS é serem todos bons rapazinhos.

«O deputado e candidato derrotado à liderança do PS Francisco Assis afirmou este sábado que "sempre" defendeu a abstenção do partido na votação do Orçamento do Estado (OE) atendendo às "circunstâncias excepcionais" que se verificam no país.

"Não apenas concordo, como sempre defendi que essa devia ser a posição do PS", disse à agência Lusa, à margem de um plenário com militantes, no Peso da Régua.» [DN]
  
 

 Procuram-se políticos sérios

«Os gregos ameaçaram seguir na direcção do abismo, arrastando com eles quem lhes lançou a corda (para os ajudar na perspectiva de uns e para os enforcar na perspectiva dos outros), e o mundo tremeu. Afinal, a política e o voto do povo ainda assustam o capital. Foi um desastre no sistema financeiro cotado em bolsa. Depois, o Governo grego recuou e o G20 respirou de alívio e voltou a decidir que faria de conta que estava a fazer alguma coisa.

Os gregos estão convencidos de que o mundo inteiro se uniu para os tramar, mas é o mundo inteiro que está tramado porque eles chegaram onde chegaram e nós andamos lá perto. A culpa nem é exclusivamente nossa. É até mais do sistema de usura em que assenta o financiamento das economias. Adiante, conhecíamos as regras e fizemos asneira ao colocar- -nos nas mãos dos usurários. Agora, nós e os gregos temos de pagar o que devemos e exigir líderes capazes de mudar as regras.

Nós, que tão mal dizemos dos políticos de uma forma geral, temos de exigir que o primado da política volte a prevalecer. São precisas lideranças nos países que, executando em nome do povo que os elegeu, saibam exigir do capital respeito por quem trabalha. É bem mais fácil do que parece. Acabem com os paraísos fiscais, regulem e fiscalizem como deve ser a actividade financeira. Garantam, no fundo, que quem empresta dinheiro ganha dinheiro, mas sem usura.

Precisamos de líderes mundiais que falem e decidam em nome do povo, que não se acobardem perante a força do sistema financeiro. Mas este caminho nunca poderá ser feito colocando uns contra os outros. Se quem gere o capital tem de mudar de vida, também quem precisa desse capital, e tem de o pedir emprestado, vai ter de mudar de vida.

Assim sendo, convém que paremos uns minutos para pensar nas consequências desta usura. O capital reprodutivo é odiado da mesma forma que o capital especulativo, mas na verdade quem investe capital na produção é tão vítima da usura como o povo trabalhador. Os empresários, por esse mundo fora, não retiram prazer da necessidade de reduzirem os custos de produção para compensarem as consequências do aumento dos custos do capital.

A memória é que não pode ser tão curta. Foi para resolver o problema da crise do subprime, resultado de um sistema financeiro sem controlo, que os Estados começaram a despejar dinheiro emprestado nas economias nacionais. Com essa solução pouco milagrosa chegamos à crise das dívidas soberanas. E aqui estamos, sem ter alterado nada do que os líderes mundiais, com Obama, Sarkozy e Merkel à cabeça, garantiam que ia mudar. Há três anos, prometiam-nos que os Estados iam colocar os mercados na ordem. Nada aconteceu. Esta semana voltaram a prometer. Tem de acontecer.» [DN]

Autor:

Paulo Baldaia.
     

 A fome faz-se sentir nas escolas

«Chegam sem a refeição da manhã, rondam sistematicamente o bar, mas nada compram. As escolas identificam assim cada vez mais alunos com carências alimentares, aos quais procuram dar resposta, apesar de os seus orçamentos também estarem em crise.» [CM]

Parecer:

E tenderá a agravar-se graças ás pinochetadas orçamentais do Gaspar, não vai mudar mas não poderá dizer que nunca viu.

Despacho do Director-Geral do Palheiro: «Leve-se o Gaspar a ver.»
  
 Cavaco avisa o governo

«O Presidente da República defendeu ainda um "diálogo frutuoso e construtivo" no Parlamento sobre o Orçamento do Estado para evitar "custos insuportáveis" para uma parte da população.» [DN]

Parecer:

Quando fala em diálogo parlaemntar quando existe uma maioria absoluta está a enviar um aviso aos Gaspares.

Despacho do Director-Geral do Palheiro: «Aguarde-se pela hora d apromulgação do OE:»
  
 Pobres banqueiros

«O aumento da tributação em sede de IRC, o fim da Zona Franca da Madeira e a subida do IVA sobre a eletricidade vão aumentar a tributação efetiva sobre a banca.» [Expresso]

Parecer:

Coitados dos bancos, até agora pagavam pouco mais do que o equivalente a um trabalhador que ganha o ordenado mínimo.

Despacho do Director-Geral do Palheiro: «Mande-se uma gorjeta de um cêntimo para cada banqueiro.»
  

The Bolshoi Theatre [Link]










 

   




Domingo, Novembro 06, 2011

Semanada

O aparecimento da fada boa transformou a pinochetada orçamental numa história de amor com um final feliz, depois de uma semana de dureza política o governo amoleceu graças ao namoro entre o Tozé e o seu velho amigo Passos Coelho. Os portugueses podem ficar felizes, graças à intervenção do líder da oposição amorosa ao governo em vez de perderem dois subsídios perdem só um e não se discute mais isso, nem a natureza discriminatória da medida, nem o seu carácter inconstitucional. Para a história ficará uma encenação preparada por Passos Coelho e Seguro para fazer passar mais um PEC.

Num ambiente de tanta paz e amor e com um pote reabastecido para 2012 começa a haver margem para que sejam os contribuintes a pagar todos os pejuízos, sejam resultantes de iniciativas falhadas de associações empresariais, sejam os provocados por negócios duvidosos de banqueiros dados a compadrios. A AEP do Ludgero Marques passou para o Estado a Europarques mais o prejuízo de 32 milhões, os banqueiros querem que o Estado crie um bad bank onde eles possam depositar os seus prejuízos. Enfim, em tempo de austeridade brutal os contribuintes das classes mais pobres e da classe média têm de suportar ainda as asneiras alheias.

Com tanta injustiça não admira que comece a ser fácil verem-se lágrimas de crocodilo, até o ex-ministro Pedro Silva Pereira se esqueceu de que foi o seu governo a abrir o caminho da facilitação do despedimentos dos funcionários públicos e a cortar mais do que um subsídio através de uma redução dos vencimentos, vem acorda designar o corte dos subsídios previsto na pinochetada orçamental como uma injustiça brutal. Digamos que é tão injustiça e tão brutal quanto o corte de 10% dos vencimentos que o seu governo decidiu.

A Europa pode estar descansada, a Grécia aceita tudo o que lhe impuserem mais um par de botas e não consulta a vontade dos seus cidadãos, a austeridade é para comer e calar. É mais ou menos o que está sucedendo com os portugueses, estão a suportar as medidas robustas, brutais e colossais de um ministro das Finanças que julga estar no Chile de Pinochet ou nos primeiros meses da ditadura do Estado Novo. A regra é comer e calar e para que não hajam dúvidas o Gaspar aumentou o orçamento das polícias, o único sector do Estado a ignorar a crise financeira. Vivemos num tempo em que o governo desinveste nos livros escolares e aposta nos cassetetes.

Talvez por sentir ciúmes da paixão entre o Passos Coelho e o Tozé o ministro dos Negócios Estrangeiros não se quis ficar atrás em histórias de amor, foi para a Venezuela assegurar a Chavez que ao adora com todas as suas forças e que melhor prova de amor poderia ter dado do que se tornar em mais um militante defensor da Magalhães!

Umas no cravo e outras na ferradura




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O "28" na Graça, Lisboa
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Vaso com hortelã [A. Cabral]
  
Jumento do dia


Pedro Gonçalves, gestor por medida

Num mundo em que tudo se faz e vende por medida é normal que também os gestores assim o sejam, aliás, ainda esta semana vimos um presidente da KPMG muito incomodado porque não gostou nada de ver os seus relatórios feitos por medida durante um governo fossem usados com outro governo no poder.

Não admira nada que um administrador espezializado em gastar dinheiro dos contribuintes em expansões de redes de metropolitano apareça agora como um campeão de cortes de linhas. Como se costuma dizer, é sempre uma questão de preço.

«O presidente do grupo de trabalho nomeado pelo Governo para estudar as alterações nos serviços de transportes públicos foi, de 1992 a 2000, administrador do metro de Lisboa e um dos responsáveis pela expansão das linhas. Pedro Gonçalves esteve depois na presidência da Normetro (que desenvolveu a Metro do Porto). Agora propõe cortes radicais nos horários de funcionamento.

O DN percorreu as linhas de metro no horário nocturno até à uma hora e só encontrou reacções de estupefacção e tristeza com a proposta de encerramento às 23.00. Ontem, o ministro Álvaro Santos Pereira garantiu que ainda não há decisões tomadas.» [DN]

 Seguro é um rapaz simpático

Está a negociar os direitos dos trabalhadores do Estado e dos pensionistaa aceitando o corte de um subsídio apesar de se tratar de uma inconstitucionalidade.
     
 

 Como topar um par falso da GNR

«Uma noite destas, no Sotavento algarvio, um automobilista foi mandado parar por dois homens, que julgou da GNR. O par mandou parar, estava vestido de GNR e multou - três boas razões para o automobilista os achar homens da GNR. Uma quarta razão - controversa, há más-línguas que dizem que só confirma a presunção, mas é justo dizer que não, desmente- -a -, uma quarta razão, dizia eu, juntou-se aos dados para classificar o par: quiseram receber logo ali a multa. Pelo Público, onde recolho a notícia, soube que a GNR tirou a coisa a limpo: são "falsos guardas." E um porta-voz aproveitou para nos ensinar a separar o trigo (um par de autênticos militares da GNR) do joio (falsos GNR). Seguem-se as instruções oficiais, e as minhas dúvidas. 1) "Se não existir uma viatura caracterizada nas imediações, cuidado." Não acham que com este aviso os bandidos vão aumentar a parada: em vez de se ataviarem só com um boné da BT comprado na Feira da Ladra, vão passar a atacar com carros-patrulha roubados? 2) "Preste atenção à compostura do militar." Presto, e se ele for malcriado posso ter a certeza, mesmo, que só pode ser bandido? 3) "Se forem militares estão armados." Quer dizer, numa situação de dúvida de eu estar a ser assaltado, devo regozijar-me por os ver armados, é? 4) "Se houver sérias dúvidas, peça a identificação." Deixem-me ver se percebi: é de noite, local ermo, há um par que me amedronta, e eu devo espicaçá-los com exigências?» [DN]

Autor:

Ferreira Fernandes.
     

 Continua a encenação

«O ministro dos Assuntos Parlamentares admitiu hoje que "todas as propostas (para o Orçamento do Estado) são possíveis de ser avaliadas", incluindo a manutenção de um dos subsídios dos funcionários públicos, como pretende o secretário-geral do PS.»  [DN]

«O secretário nacional do Partido Socialista, João Ribeiro, disse, este sábado, encarar de forma "muito positiva" as palavras do ministro dos Assuntos Parlamentares de admitir a manutenção de um dos subsídios da função pública.» [JN]

Parecer:

Coemça a ser evidente que Seguro aceitou a pinochetada orçamental e que combinou com Passos Coelho um recuo na sequência das suas posições.

Despacho do Director-Geral do Palheiro: «Ridículo.»
  

   




Sábado, Novembro 05, 2011

Capitalistas da treta

Enquanto o governo privatiza tudo e mais alguma coisa em nome da suposta superioridade da gestão privada o país assiste à exibição de uma fila de empresários junto à sopa dos pobres, pedindo dinheiro dos contribuintes. Os nossos orgulhosos empresários e banqueiros mais parecem uns sem abrigo à espera da carrinha do Banco alimentar contra a Fome.

Quem diria que o garboso Ulrich, um dos banqueiros que mais aprecia dar lições de moral ao país e que desde há uns anos anda armado no modelo de virtudes da alta finança nacional, haveria de ser um dos que mais precisa da ajuda do Estado para se recapitalizar e assegurar aos seus depositantes que as suas poupanças não serão tragadas pelos créditos mal parados ou as garantias da treta de negócios menos bem sucedidos.

O mesmo governo que exibiu a Parque Expo como o exemplo da má gestão estatal prepara-se agora para “nacionalizar” a Europarques e os seus mais de trinta e dois milhões de prejuízos. Os exemplos multiplicam-se e ao mesmo ritmo que os contribuintes e trabalhadores do Estado vão dando folga financeira ao ministro Gaspar este vai-se multiplicando em acções generosas. De um lado vão ao pote do contribuintes e dos trabalhadores, do outro vão salvando empresários e banqueiros que foram maus gestores, incapazes e irresponsáveis.

Assim como o pobre é maneta enquanto o rico é deficiente as empresas públicas são geridas com incompetência e fonte de todos os males, as empresas privadas estão em dificuldades por causa da crise e dos salários elevados e os seus gestores são modelos de virtudes.

O mesmos banqueiros que não revelaram grande imaginação na gestão dos seus bancos mostram-se agora muito criativos na tentativa de transferir, sem mostrarem o mais pequeno pudor, os seus prejuízos para os contribuinte. A última grande ideia foi a criação de um bad bank, passavam para um banco do Estado todos os activos tóxicos, isto é andaram a empregar dinheiro a vigaristas a troco de falas garantias

Os mesmos altos gestores, capitalistas e banqueiros que criticaram os governos por incompetência geriram mal as suas empresas, criticaram a falta de rigor mas aceitaram falsas garantias a troco de dinheiro que arranjaram facilmente, criticaram a falta de previsão mas foram incapazes de prever o desastre, criticaram o país por ter de pedir ajuda internacional mas agora querem enganar os contribuintes trocando os seus impostos por lixo.

Umas no cravo e outras na ferradura




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Sacavém
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Tancos [A. Cabral]
  
Jumento do dia


Pedro Silva Pereira

Pedro Silva Pereira, ex-ministro da Presidência, garante que se o PS fosse governo não cortaria os subsídios. Pois, mas foi o seu governo que cortou uma parte do vencimento dos funcionários públicos ao mesmo tempo que lhes aumentou os descontos e retirou direitos. Além disso, começa a ser notícia na comunicação social que Seguro estará a negociar o OE exigindo que se corte apenas um subsídio, o que deixa implícito que concorda com o corte do outro ou pelo menos o aceita.

«O ex-ministro Pedro Silva Pereira defendeu quinta-feira à noite o voto contra o Orçamento, frisando que se o PS estivesse no Governo nunca cortaria os subsídios de férias e de Natal dos trabalhadores do sector público.» [DN]

 Os 'spin' de Coelho e Relvas ao serviço de Seguro

Começa a se evidente que a abstenção de Seguro no orçamento estava combinada em momento anterior à divulgação deste e que agora são os 'spin' do governo a passar a ideia de que devemos ficar gratos a Seguro. Por este andar ainda vai fazer mais sentido que Seguro vá para vice do PSD do que manter o estatuto de líder da oposição pois não o tem sido.

 Há coisas difíceis de entender

O Estado vai extinguir a Parque Expo porque dá prejuízo mas vai ficar com o Europarque para ficar com os prejuízos da AEP. Enfim, uma questão de critérios duvidosos.
  
 

 Nesta luta (a)final

«O casamento entre o capitalismo e a democracia acabou." A frase, do filósofo esloveno Slavoj Zizek durante uma entrevista à Al Jazeera, surgiu dois dias antes do anúncio-choque do PM grego sobre a intenção de convocar um referendo sobre as medidas de austeridade. A reacção às palavras de Papandreou dos chamados "mercados", assim como dos governos "dominantes" da Europa - e até de muitos jornalistas -, gritaria de irresponsabilidade e loucura embrulhada num minicrash das bolsas (com os bancos a mergulhar devido à sua exposição à dívida grega e à hipótese de o país decidir não pagar), pareceu encomendada para ilustrar as de Zizek. E houve mesmo quem, como o colunista polaco Waldemar Kompala, do jornal Rzeczpospolita, não se coibisse de lhe dar razão com todas as letras: "Enquanto a crise durar, a UE deve ser gerida com eficácia, mesmo não democraticamente." (via The Guardian).

Ora sucede que, como toda a gente já reparou, há muito que a Europa está a ser gerida, ou coisa que o valha, não democraticamente, e não é por causa disso que a coisa se tem revelado eficaz - a não ser que a eficácia se deva medir, precisamente, na destruição do ideal democrático. É que se é por aí, está a correr lindamente. Quando se reage com fúria e incredulidade à possibilidade de um Estado perguntar à população, submetida a brutal austeridade, qual o caminho que escolhe, isso só pode querer dizer que ou se considera que aquele povo em particular não pode ser dono de si ou se está a negar a ideia de democracia tout court.

Sobre a existência de um racismo em relação aos povos do Sul não restam dúvidas; afinal, já fomos acusados por Merkel de trabalhar menos horas, de termos mais férias e de nos reformarmos mais cedo. E se se trata de uma falsidade, como a própria imprensa alemã demonstrou, não é menos óbvio que essa ideia de que cá por baixo temos mais direitos do que os que merecemos tem feito o seu caminho, mesmo nas nossas cabeças. Até chegarmos a isto, ao momento em que vemos dito e escrito e repetido como óbvio esta coisa obscena: que há povos aos quais não se pode permitir decidir para que lado querem ir, porque outros - melhores, mais responsáveis, mais "trabalhadores", mais ricos - decidem por eles.

Quem paga manda, disse Ferreira Leite num célebre momento parlamentar. A crer nisso, a defender isso, os alemães e os franceses talvez devessem perguntar-se quem afinal está no lugar de quem paga e portanto de quem manda. Falo dos trabalhadores alemães e dos trabalhadores franceses, aqueles para quem ainda há férias pagas e horários de trabalho de oito horas e a quem ainda se pergunta o que acham. É que, como as crises financeiras, as de regime costumam ser sistémicas. E tendo Zizek razão, é só uma questão de tempo até que o processo de chinezação em curso chegue lá acima. Ou, visto de outra forma - e alguma esperança - até que se ressuscite a Internacional.» [DN]

Autor:

Fernanda Câncio.
  
 Ensaio sobre a cegueira alheia

«O DN publica hoje a lista Forbes dos 70 mais poderosos do mundo. Como todas as listas Forbes, esta também é pouco imaginativa: percorri os 70 nomes e não encontrei o do grego George Papandreou. Como se o órgão com mais poder de um cardíaco não fosse, exactamente, o coração fracote e em vias de ser decisivo. Papandreou é poderoso: quando a Grécia espirra, a Alemanha e a França juntas apanham gripe. Quando Papandreou ameaça com um referendo, o euro desaba e Wall Street abana, e ele não é um dos poderosos do mundo?! E nem se pode explicar a sua ausência entre os 70 por o poder da Grécia vir de calotes: na lista há um bandido indiano e um mexicano chefe de cartel de droga... Brinco com coisas sérias, diz aquele senhor da mesa do canto. Ah, eu é que brinco. A Grécia (11 milhões de habitantes) está à beira do colapso e quando passar ao colapso não tem euros para comprar um barril de petróleo mas só iogurte para trocar por frutos secos e pode perder a liberdade e a democracia. A Grécia está tão desesperada que o mais responsável dos seus políticos, o primeiro-ministro que toma medidas imprescindíveis, também propõe referendos e retira-os no dia seguinte. E essa Grécia agonizante não vê um sobressalto entre os seus políticos, um trabalhista Demóstenes Attlee que se junte a um conservador Diógenes Churchill, uma oposição e um governo que se transformem em gregos depressa e sem condições - e eu é que brinco?» [DN]

Autor:

Ferreira Fernandes.
  
 Injustiça brutal

«A eliminação, dita transitória, dos subsídios de férias e de Natal dos funcionários públicos, dos trabalhadores das empresas públicas e dos pensionistas constitui uma injustiça brutal e intolerável na distribuição dos sacrifícios.

Para além da medida ser discriminatória, violando grosseiramente os princípios da igualdade e da equidade fiscal, é chocante o modo como atinge pessoas com rendimentos muito baixos, implicando reduções de rendimento logo a partir dos 485 euros por mês. E as coisas estão ligadas: a escolha de um universo tão restrito conduziu a uma enorme violência no esforço imposto aos grupos atingidos, em claro desrespeito do princípio da proporcionalidade.

Não têm qualquer fundamento os argumentos do Governo. Foi dito, primeiro, que não teria vantagem para o défice cortar nos salários privados porque eles "não são pagos por dinheiros públicos". Mas é óbvio que, não existindo alternativa, sempre seria possível intervir por via fiscal, como se fez este ano com o subsídio de Natal, garantindo mais equidade.

Foi dito, depois, que não era possível a via fiscal porque o Memorando da "troika" exige que a consolidação seja feita em 2/3 do lado da despesa. O problema deste argumento é ser falso: o Memorando não "exige" que a consolidação seja feita em 2/3 do lado da despesa, limita-se a "constatar" que o programa de medidas negociado em Maio envolvia um esforço feito em 2/3 do lado da despesa, o que é muito diferente. Não está definido nenhum princípio de repartição que tenha de ser respeitado em qualquer pacote futuro de medidas adicionais e, menos ainda, independentemente da natureza estrutural ou temporária dessas medidas.
 
O que está em causa é uma orientação antiga do PSD. Já na negociação do Orçamento para 2011 o PSD revelou idêntica obsessão por medidas do lado da despesa, em detrimento de medidas fiscais, ainda que mais equitativas. Na altura, entre ultimatos e braços-de-ferro sobre benefícios fiscais, foi essa intransigência do PSD que forçou o Governo minoritário do PS a incluir uma redução de 5% nos salários da função pública visto que, de outro modo, com soluções mais equitativas do lado da receita, esse Orçamento não teria passado. Não é a "troika" mas sim o PSD que determina estas opções.

Argumento muito invocado é o da segurança no emprego. Mas ele não vale para os pensionistas, nem para as empresas públicas e não se aplica aos muitos trabalhadores do Estado com contrato individual de trabalho ou com vínculos precários (como os professores contratados). E mesmo para os que beneficiam de uma segurança reforçada no emprego, não justifica uma tão violenta penalização salarial.

Alegou-se, ainda, que os funcionários públicos ganham, em média, mais do que no privado. Mas os estudos existentes assumem que a comparabilidade é limitada e que tal conclusão não é válida para todas as categorias de funcionários e de vencimentos. Seja como for, qualquer critério de distribuição de sacrifícios em razão não dos rendimentos de cada um mas da natureza do seu empregador ou dos rendimentos médios do sector respectivo só pode conduzir a injustiças inaceitáveis.

Não convence, também, o argumento de que seria preciso "poupar o sector privado", a bem da economia. Além do preconceito ideológico, este argumento envolve um equívoco: o corte proposto não penaliza o Estado em detrimento das empresas, o que faz é penalizar umas famílias em detrimento de outras, prejudicando toda a economia. Menos ainda convence o argumento de que os sacrifícios são para todos: a meia-hora de trabalho adicional no sector privado não tem uma penosidade comparável ao corte nos rendimentos do sector público.

O Governo apresentou muitos argumentos, é certo. Mas em nenhum conseguiu apresentar uma boa razão. Pode compreender-se: o facto é que este Orçamento configura uma injustiça brutal. E contra factos não podia haver bons argumentos.» [DE]

Autor:

Pedro Silva Pereira.
   

 Itália à beira da crise

«A Itália acordou na cimeira do G20 em Cannes a monitorização cuidadosa do seu compromisso para a redução do défice pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) e Comissão Europeia, afirmou esta sexta-feira uma fonte ligada ao processo. Analistas económicos defendem que este é o primeiro passo para a oitava economia do Mundo pedir um resgate financeiro. » [CM]

Parecer:

Afinal a crise não é um atributo exclusivo de países governados pela esquerda.

Despacho do Director-Geral do Palheiro: «Faça-se um sorriso.»
  
 Obrigadinho Seguro!

«O secretário-geral do PS afirmou hoje que terá como preocupação central que o Orçamento do próximo ano poupe um dos dois salários que o Governo pretende cortar aos trabalhadores do sector público e aos pensionistas.» [DN]

Parecer:

Seguro decidiu ajudar os funcionários públicos concordando com o governo no corte de um subsídio, uma decisão discriminatória e inconstitucional. Obrigadinho.

Despacho do Director-Geral do Palheiro: «Mande-se o Seguro apanhar gambozinos.»
  
 António Costa mais troikista do que o Gaspar

«Em causa está a possibilidade de reduzir a semana de trabalho para quatro dias, com um corte salarial correspondente a 20% do vencimento base e a eliminação ou limitação da recolha do lixo na cidade ao sábado. As medidas constam de um despacho do presidente da Câmara, António Costa, a que o Económico teve acesso.

No despacho, datado de 14 de Outubro, o edil manda as direcções municipais apresentarem um estudo, no prazo de 30 dias, sobre o impacto financeiro em 2012 destas medidas que vão afectar os cerca de dois mil trabalhadores do serviço de higiene urbana de Lisboa e milhares de outros funcionários afectos aos serviços não operacionais da câmara. Com o estudo já em marcha, aguardam-se as conclusões para a próxima semana, as quais visam "habilitar o Executivo a poder tomar decisões com impacto no próximo exercício".» [DE]

Parecer:

A verdade é que Lisboa já é a cidade mais porca da Europa pelo que mais diz de lixo menos dia não se fará sentir. Lamenta-se no entanto que em vez de cortar nas despesas eleitoralistas, como os passeios dos velhinhos a Fátima, a CML corte nos ordenados.

Despacho do Director-Geral do Palheiro: «Proteste-se.»
  
 Bacelar Gouveia: corte nos subsídios é inconstitucional

«Jorge Bacelar Gouveia disse hoje à agência Lusa, no Porto, que a suspensão dos subsídios de Natal e de férias é "inconstitucional", porque atinge apenas uma parte da população activa.

"A suspensão dos subsídios de Natal e de férias é obviamente inconstitucional, porque atinge apenas uma parte daqueles que deveriam suportar esse encargo nacional. A culpa não é dos funcionários públicos", afirmou Bacelar Gouveia à Lusa, à margem de uma conferência na Universidade Lusíada sobre "A centralidade do direito constitucional".» ,[DE]

Parecer:

Só o Seguro é que não sabe e por isso anda a negociar o inegociável.

Despacho do Director-Geral do Palheiro: «Exija-se a Cavaco Silva que mande o OE para o Tribunal Constitucional.»
  
 O quê?

«O Governo português está a pensar criar um banco estatal - bad bank - com os crédito à habitação tóxicos detidos pelos bancos nacionais, à medida que procura injectar liquidez nas empresas públicas que precisam de dinheiro.

De acordo com fontes do governo e dos bancos portugueses, citadas pelo Wall Street Journal, as empresas públicas estão a enfrentar um sério e pior do que o esperado fecho da torneira do crédito, após os bancos estrangeiros terem cortado o financiamento às instituições nacionais.

Em entrevista ao WSJ, o presidente-executivo do BES, disse que a banca propôs ao Governo a criação do "bad bank", e sugeriram que os activos deste banco fossem os empréstimos contraídos pelo Estado ao sector público.» [Dinheiro Vivo]

Parecer:

Este será o maior golpe da direita nos portugueses, transferir os prejuízos da banca, muito deles resultantes de má gestão ou de créditos concedidos a compadres, para os contribuintes.
Despacho do Director-Geral do Palheiro: «Proteste-se.»
  
 Mais patetices do Batanete da Rua da Horta Seca

«O ministro da Economia afirmou hoje que o tecido empresarial português está a reinventar-se, mas que todos terão que trabalhar mais para superar a crise e ninguém pode sentir-se descansado.

As declarações de Álvaro Santos Pereira foram preferidas após uma visita a três empresas de Oliveira de Azeméis - à fábrica da Simoldes, à unidade de plásticos Polisport e à empresa do designer de calçado Luís Onofre -, onde o governante afirmou: "Estas empresas mostram como o país se está a reinventar. Setores como o calçado, o têxtil e os moldes são verdadeiros campeões nacionais, que nos orgulham e mostram que em Portugal existe uma revolução silenciosa a acontecer na indústria portuguesa e que as empresas estão cada vez mais a apostar na internacionalização e em produtos de alto valor acrescentado".» [i]

Parecer:

O homem é mais eficaz do que a Santinha da Ladeira, Já chegou há meses, pouco mais fez do que dizer larachas e palermices, mas já consegue ver a economia a reinventar-se graças ao seu brilhantismo.

Despacho do Director-Geral do Palheiro: «Dê-se a merecida gargalhada.»
  
 Um Alegre manso

«O ex-candidato presidencial Manuel Alegre afirmou hoje que o Orçamento do Governo configura uma "revolução conservadora e ultraliberal", mas compreende a decisão do PS se abster na votação face à situação difícil e complexa da União Europeia.

"Quero que fique claro que continuo a apoiar a liderança de António José Seguro", afirmou Manuel Alegre à agência Lusa, depois de interrogado sobre a decisão dos socialistas se absterem na votação da proposta do Governo de Orçamento do Estado para 2012.» [i]

Parecer:

Pobre Alegre, no tempo de Sócrates por muito menos aliou-se ao BE contra o governo.

Despacho do Director-Geral do Palheiro: «Faça-se um sorriso caridoso.»
  
 Grandes luminárias

«A simplificação tarifária nos transportes públicos proposta pelo grupo de trabalho que estuda a reestruturação do sector vai levar a que muitos utentes passem a pagar mais entre 10% e 25% pelos transportes face ao que pagam hoje.



Esta actualização automática – e que não invalida os futuros aumentos nos transportes – ocorre porque os passes individuais vão desaparecer, sendo trocados por passes que servem para utilização em mais do que uma empresa, mesmo que o utente precise apenas de utilizar o metro para os seus trajectos – ou o autocarro. Se normalmente compra um passe só para o Metro de Lisboa, por exemplo, que custa 32 euros, o seu ‘equivalente’ no futuro custará perto de 36 euros, segundo apurou o i. Um cenário que não se cinge aos utentes que viajam internamente na cidade.


Também o fim previsto das ligações suburbanas da Carris vai empurrar muitos utentes para títulos mais caros – um para os transportes de Lisboa e outro para os operadores privados que sirvam essa ligação, ou um misto dos dois –, quando antes um único passe da transportadora lisboeta era suficiente» [i]

Parecer:

Os grandes defensores dos mercados defendem o absurdo de um consumidor pagar por serviços que não usam para dessa forma aumentarem os preços de forma encapotada.
  
Despacho do Director-Geral do Palheiro: «Recuse-se o oportunismo.»
  
 Quem se mete com a KPMG leva?

«"A KPMG está a reavaliar a relação que está disponível para ter com a EP enquanto a administração for a atual", afirmou Luís Magalhães, durante uma audição na Comissão Parlamentar de Economia e Obras Públicas.

Luís Magalhães disse que houve quebra de confidencialidade por parte da EP ao divulgar um estudo sobre as projeções dos fluxos financeiros das concessões rodoviárias, sendo este um dos argumentos que será tido em conta na reavaliação da relação com a empresa pública, que dura há 10 anos.

O eventual fim da "relação custa-nos a nós, mas também vai custar ao Estado", argumentou o administrador da KPMG, acrescentando que "quem se mete com a KPMG leva".» [i]

Parecer:

De arrogante este idiota não tem nada, começou por dizer que os dados não eram da KPMG e acaba com ameaças.

Despacho do Director-Geral do Palheiro: «Mande-se o senhor da KPMG à bardamerda e recorde-se-lhe que na política há ciclos e que um dia vai engolir a sua arogância pois ou a KPMG muda de gestor ou o melhor será abandonar o país.»
  
 O Alberto vem buscar mais dinheiro

«Fonte do gabinete de Jardim disse à Lusa que a audiência cumpre o formalismo de apresentação de cumprimentos por parte do presidente do XI Governo da Madeira, depois de ter tomado posse perante a Assembleia Legislativa da região, uma cerimónia que acontece a 09 de Novembro.



Segundo a mesma fonte, neste encontro serão também "tratados vários assuntos pendentes, na sequência dos contactos diários que têm acontecido entre Lisboa e o Funchal".» [Jornal de Negócios]

Parecer:

Com o desvio colossal pago pelos funcionários públicos o Alberto já pode sacar mais uns milhões para alimentar o negócio madeirense de sifões de retrete.

Despacho do Director-Geral do Palheiro: «Espere-se para ver.»
  

 World Population: Where it's thick and where it's thin [Boston.com]










 

 Kraen