quinta-feira, março 31, 2016

Reformas low cost

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A propósito de mais um mega plano de reformas que prevê gastar mais uns milhares de milhões, interrogo-me se estas serão as reformas mais necessárias para promover o desenvolvimento do país ou se serão suficientes. Tenho cada vez mais dúvidas sobre se será este o caminho, dúvidas que resultam de várias décadas a assistir ao mesmo modelo.

Construíram-se muitas auto-estradas mas não vi grande atracção de investimento e de novas empresas tendo por critério a proximidade em relação a essas vias de comunicação, nalguns casos, como sucedeu com Sines, ignoraram-se alguns polos de desenvolvimento com grande potencial para transportar gente de forma rápida e confortável para nenhures. Poderíamos dar muitos exemplos de investimentos que não se traduziram em criação de empresas, de emprego ou da realização de investimentos.

É um facto que com os muitos milhões, primeiro de ecus e depois de euros, o país evoluiu muito, assistiu a um grande desenvolvimento social e humano, mas taém é verdade que daí não resultou um grande desenvolvimento económico. Promoveram-se actividades de serviços, como é o caso da banca, que se especializaram em tirar partido dessa inundação de dinheiro e quando este faltou foi o que se viu.

Há reformas “baratas” que são essenciais, reformas que não passam pela reintrodução da escravatura como parece ser a solução de Passos Coelho, ou pela inundação do país com dinheiro como todos apoiam. São reformas que todos conhecem ser indispensáveis mas que ao longo de décadas se vai iludindo a realidade e tudo fica na mesma.

As causas do nosso desenvolvimento não se ficam por aquilo que é mensurável pelos indicadores económicos, sociais ou académicos. Há problemas profundos na sociedade portuguesa que têm de ser combatidos, problemas que se prendem com privilégios de grupos corporativos que dominam sectores fundamentais como a justiça, ou como questões de ordem cultural, como o compadrio, a corrupção e o tráfico de influências que condicionam muitos negócios, não só no plano das relações com o Estado, mas também as relações entre empresas.
  
De nada nos servem as auto-estradas, as universidades, os centros de formação ou os laboratórios de excelência, se o Estado sofre com a evasão fiscal, se os mais capazes são excluídos tanto no Estado como nas empresas privadas por uma cultura de compadrio, se os atrasos na justiça protegem os incumpridores ou ajudam os burocratas do Estado a tornar o Estado ainda pior, se os negócios dependem mais das comissões e das luvas do que dos preços ou se as decisões politicas estão condicionadas à criação de mercados para as empresas oportunistas de gente que domina as estruturas ocultas dos partidos.

Estas são as reformas mais baratas, mas parece serem as reformas mais difíceis de promover.
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