segunda-feira, outubro 17, 2016

Qual é a palavra que não perceberam?

O incidente ficou famoso, estava-se em 2011 e preparava-se o OE, numa reunião do Conselho de Ministros o então ministro da Economia Álvaro Santo Pereira propunha que o OE para 2012 contemplasse medidas para estimular crescimento, Gaspar tentou “calar” o ministro da Economia dizendo-lhe "não há dinheiro", mas perante a insistência deste pôs fim ao assunto perguntando-lhe "qual das três palavras é que não percebeu?".  O incidente poderia ter ficado no segredo dos deuses mas nesse tempo Gaspar era o Deus e a política económica visava a eugenia económica, pretendia depurar-se a economia de sectores que a extrema-direita chique consideravam tóxicos, como a construção civil ou a restauração. 

A revelação do segredo visava dizer ao país que quem mandava era Gaspar, a nova ordem estabelecida seguia a palavra de ordem “Gaspar! Gaspar! Gaspar!”, informando que se excluía qualquer preocupação com o crescimento. Defender a promoção do crescimento era quase um pecado, assim foi até ao ano de 2015, o próprio Álvaro Santos Pereira, que tanto tinha ajudado Passos a chegar ao poder, aprendeu-o com uma humilhação pública.

Não me recordo de ver um único alto dirigente do PSD ou do CDS, um dos conhecidos comentadores da TV começando pelos Ferreiras, tanto o Paulo como o Jorge, e acabando no senhor da CIP defenderem medidas para o crescimento. Dantes o objectivo era o equilíbrio das contas públicas e o crescimento resultaria da confiança dos investidores em finanças públicas saudáveis. Defendia-se que o crescimento era obra da iniciativa das empresas e não e políticas expansionistas.

Mudaram muito depressa de opinião, agora querem o melhor de dois mundos, querem que se equilibrem as contas públicas reduzindo o défice e, ao mesmo tempo, exigem um orçamento que estimule o crescimento. As a mudança é ainda mais profunda, é uma mudança nos alicerces ideológicos e mesmo na concepção do Estado. Agora o multiplicador de Keynes deu lugar ao multiplicador da riqueza, o estímulo da economia já não se promove através do consumo, mas sim do financiamento do capital.

Orçamento já não serve apenas para financiar funções tradicionais do Estado, deixando a economia ao sabor da iniciativa privada, com o sempre defendeu a direita. A direita defende agora que os orçamentos devem servir as empresas e serem concebidos em função destas e que o papel redistributivo dos impostos deve ser invertido, isto é, devem cobrar-se impostos a quem trabalha para que as receitas fiscais possam estimular as empresas com compras do Estado ou reduções de impostos sobre as empresas. Deve cobrar-se mais IRS para aumentar os consumos intermédios e reduzir o IRC.

Agora já não se limitam a defender a desvalorização fiscal, são mais descarados, devem ser os trabalhadores a financiar o crescimento económico suportando mais impostos, isto é, o investimento que cria novos empregos deixa de ser financiado pelo capital dos donos das empresas, para ser estimulado pela transferência de rendimentos dos que trabalham para os que os empregam, feita através da manipulação dos impostos. Vai-se ainda mais longe do que alguma vez se imaginou, os baixos salários estimulam a competitividade e os impostos sobre esses baixos salários financiam o capital.


O que a direita exige já não é apenas o respeito pelo Pacto de Estabilidade, quer que mesmo com o rigor financeiro a que isso obriga a política fiscal sirva para prosseguir na promoção das assimetrias do rendimento, servindo de Sheriff de Nottingham, diminuindo os rendimentos de quem trabalham mantendo o IRS a níveis elevados para estimular o crescimento, o que na linguagem desta direita liberal que gosta de mamar significa dar dinheiro às empresas. A sua imbecilidade e descaramento vão ao ponto de que seja um governo de esquerda a adoptar esta política económica da extrema-direita chique mais idiota da Europa. Apetece dizer-lhes "vão à bardamerda" e depois perguntar-lhes como faria o Gaspar "qual a palavra qe não perceberam?".


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