terça-feira, setembro 13, 2016

O franciscanismo ideológico

Ao contrário do que sucede noutras paragens, onde a riqueza e o sucesso são mais apreciados, nestas bandas, onde impera aquilo a que designam por catolicismo profundo, damos grande importância à pobreza enquanto símbolo de pobreza. É um tique que Salazar promoveu e ainda hoje o ditador é referido como um modelo de político que não enriqueceu.

Cavaco Silva que tem uma luxuosa habitação de férias adquirida em condições muito originais foi outro mestre nesta imagem do político austero, que não enriquece. Mesmo apoiando de forma quase cega a política de austeridade chegou a queixar-se dessa mesma austeridade, afirmando que as pensões da família não davam para as despesas.

Veja-se o exemplo de Passos Coelho que vai para a praia de xanatas, um modelo de virtudes se comparados com os famosos sapatos de marca de Sócrates. Mas o melhor exemplo de fanciscanismo extremo foi-nos dado por esse modelo nacional de virtudes em que Carlos Alexandre se quis transformar. 

Esta cultura miserável em que quem vive no mundo privado é admirado pela riqueza que tem e exibe, enquanto no exercício de funções publicas deve-se fazer provas de fanciscanismo, valorizando-se os sinais de pobreza leva a uma forma de estar miserável e à promoção colectiva de gente miserável.

Mais grave do que se exigir que todos nos apresentemos como o tenente Columbo, detective da polícia de Los Angeles numa série com o mesmo nome, é a promoção desta forma miserável de estar. No sector privado devemos admirar quem mais ganha, no sector público devemos desconfiar de quem usar meias limpas.

A pobreza não é uma virtude, não é virtuosa, nem é algo que se deseje ou possa ser exibido como qualidade. E ser pobre é algo muito diferente de ser humanamente miserável. O grave nesta forma de certificar o miserabilismo como qualidade enquanto cidadão não é casual, enquanto colectivo e ao perseguirmos qualquer sinal de riqueza de quem exerce funções públicas estamos a criar um determinado estereótipo de político, de juiz de funcionário.

Não admira que comecem a aparecer anormalões a apresentarem-se como modelos nacionais merecedores da confiança nacional.



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