quinta-feira, junho 06, 2013

Mais ou menos austeridade? (1)

É cada vez mais óbvio que a actual política económica é mais o resultado de sentimentos mesquinhos com ideologia do que uma opção estudada e implementada a pensar no país. Alguém quer usar Portugal para se meter em bicos de pés e entrar em Harvard pela porta do cavalo testando um estudo de uns doutores lá do sítio, enquanto há quem queira vingar-se da história, do país e de um povo por abandonos passados.
Mas se este excesso de austeridade tem mais de ideologia do que de política económica, também o discurso oposto encontra fundamento na ideologia e não em qualquer raciocínio económico. Têm tanta razão os que acham que reintroduzindo a escravatura haverá crescimento e progresso como os que sonham com grandes siderurgias e cinturas industriais de Lisboa altamente produtivas. O país acaba dividido entre discursos ideológicos e protagonizado por figuras intelectuais de menor dimensão, uns dizem com sorriso cínico que não vale a pena meterem lá outros porque há um memorando, outros asseguram que rasgando o memorando chovem euros.
As comparações entre um país e uma empresa ou uma família são habituais nalguma direita para fundamentar soluções ruralistas de que Salazar foi um teórico, ainda que o antigo professor tivesse mais inteligência num cabelo do que o actuais governantes têm na sua farta cabeleiras. Mas mesmo assim vale a pena imaginar que Portugal é uma empresa.
A crer em Passos Coelho para que essa empresa dê lucros precisa de trabalhadores quase a passar fome, de um contabilista austero ainda que incapaz de prever a quantas andam as contas da empresa dois meses depois. O investimento deve ser eliminado, a eficiência interna é coisa que não justifica perdas de tempo com discussões, a questão das soluções energéticas não se coloca, tudo se resolve com salários baixos e se o custo da energia aumentar a solução é evidente, aumenta-se meio dia de trabalho por semana para os trabalhadores, sem qualquer aumento de vencimento ao mesmo tempo que se reduz o salário, com base nesse aumento do horário é possível despedir trabalhadores.
A crer nalguma propostas alternativas a solução é fácil, aumenta-se a produção mesmo sem se saber a quem se vai vender, suspende-se o pagamento das últimas encomendas de matérias-primas, bem como da factura da electricidade. Depois é só aumentar a produção e encher os armazéns e com base no valor do produto acabado e tendo em conta os preços previstos pode-se proceder ao aumento de salários e até à contratação de mais trabalhadores.

Enfim, se no passado alguns partidos venderam sonhos radiosos a troco de votos agora querem injectar doses cavalares de ideologia. Das mentiras eleitorais o país evoluiu para as mentiras ideológicas. Até agora é este o único ajustamento que ocorreu em Portugal.
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