segunda-feira, novembro 16, 2015

Crescer com justiça social ou crescer à custa da justiça social?

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A nossa quase extrema direita tem feito passar a mensagem de que a justiça social pode ser um obstáculo ao crescimento económico, isto é, mais justiça social significa menos crescimento e menos crescimento será pago pelos pobres com salários ainda mais baixos e mais desemprego. Segundo esta lógica os mais pobres terão menos a perde se aceitarem menos rendimentos e mais trabalho pois assim garantem um salário.
  
Este modelo assenta na ideia de que a pobreza é uma vantagem comparativa e qualquer processo de redistribuição de rendimento traduzir-se-á em menos crescimento. Este é o modelo da direita portuguesa desde que há capitalismo em Portugal e os resultados estão à vista, crises sucessivas, emigração, pobreza endémica, baixo nível de escolaridade e de qualificação. Um país de pobres é um país pobre, esta é a regra em todo o mundo onde não há um único país que tenha ficado rico aumentando o número de pobres.
  
A tese de Passo Coelho, que estes anos tem sido apoiada por personalidades como Vítor Bento, João Duque Eduardo Catroga e outros economistas (ou espécies disso), é a de que há uma relação entre o aumento de rendimento dos mais pobres e as crises financeiras. Mais dinheiro para os que trabalham significa maiores défices e crise financeira, assim, a superação das crises deve ser superada transferindo rendimentos dos trabalhadores para os patrões, cortando prestações sociais, mesmo quando financiadas pelos próprios trabalhadores, cortes de vencimentos de funcionários públicos e eliminação de serviços públicos.
  
Para o cidadão comum isto parece verdadeiro, se os trabalhadores ganham menos os produtos serão mais baratos e as empresas serão mais competitivas, exportarão mais e daí resultará crescimento. Este era o modelo subjacente às desvalorizações e que o governo Passos Coelho implementou recorrendo á desvalorização fiscal e a algumas medidas a que a UGT cedeu, talvez porque contava com um bom cargo para Proença ter uma reforma confortável.
  
Só que a realidade é outra, o que o país está fazendo é vender os seus trabalhadores mais baratos, isto é, exporta menos valor acrescentado. Isso promove maus empresários, cria vantagens competitivas a empresas que dispensam a qualificação e o investimento e inovação e a longo prazo os resultados são desastrosos. É graças a esse modelo que Portugal se afundou com a deslocalização de uma boa parte das suas indústrias de mão de obra intensiva e é por isso que apesar dos baixos níveis de qualificação dos nossos trabalhadores os jovens quadros são obrigados a emigrar.
  
Este modelo de crescimento dá lugar a um circulo vicioso e para sobreviver precisa que os trabalhadores ganhem cada vez menos. Quando pertencíamos à EFTA competíamos com empresas da CEE em sectores como os têxteis, depois passámos a competir com empresas asiáticas, seguiram-se os países do Leste e já temos de competir com empresas do Egipto e da Turquia. Já fomos ultrapassados pelos países asiáticos, estamos à beira de ser ultrapassados pelos países do Leste e veremos se um dia não seremos ultrapassados pela Turquia e pelo Egipto.
  
Um país de pobres é um país que afugenta as empresas tecnológicas, que expulsa os seus melhores quadros, que não promove um ambiente favorável à inovação , é um mercado com um baixo padrão de consumo onde as classes ricas tendem a ir fazer compras a Paris ou Nova Iorque. Um país pobre é um país com baixos níveis de cultura, vulnerável a fenómenos como a corrupção, com cidadãos menos cultos e políticos menos escrupulosos. Um país de pobres é um país politicamente instável e a longo prazo afugenta investidores.
  
Crescimento sem justiça é uma ilusão a longo prazo, nem é sustentável nem se traduz em desenvolvimento económico e social. É preferível taxas de crescimento mais baixas mas com mais justiça pois a longo prazo este crescimento é mais sustentável e sólido, poupando o país às crises financeiras a que nos tem conduzido um modelo económico que em vez de viver de empresas competitivas em resultado da qualidade, da gestão e da inovação, resulta de empresas e empresários alimentados por miséria social. Não é a justiça na distribuição de rendimentos que tem conduzido às crises mas sim o inverso. São as empresas menos competitivas que têm arrastado o país para as crises.
  
E empresas menos competitivas significam salários baixos, gestores menos competentes e políticos mais corruptos. As três grandes causas do nosso subdesenvolvimento são na verdade uma única causa, um modelo de crescimento injusto e falhado e graças ao qual Portugal nunca passou da cepa torta. A defesa deste modelo por alguns políticos não visa o progresso do país, visa proteger empresários preguiçosos e menos competentes e isso tem ficado evidente por algumas intervenções que temos visto à saída das audiências de Cavaco àqueles que ele considera a nata da sociedade portuguesa.
  
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