sexta-feira, novembro 06, 2015

Expirou o seguro de vida da direita

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Durante anos a direita elogiou o PCP, desde que este partido ficou arredado do acesso ao poder até havia uma certa simpatia, nem mesmo os sucessivos abandonos da CGTP das reuniões da concertação social incomodava os partidos da direita, tinham o sindicato dos bancários e o Proença para assinar os acordos de que Passos Coelho tanto se gabou. A luta do PCP na rua e a posição contra o PS no parlamento era de uma grande utilidade.
  
O PCP era um partido cheio de virtudes, um partido institucionalista, respeitador da palavra, um excelente parceiro de coligação nalgumas autarquias. Até havia quem, como Bagão Félix achasse que este partido poderia coligar-se com a direita numa situação em que esta não contasse com a maioria parlamentar. Durante décadas o PCP mantinha a mesma postura e a direita acomodou-se à ideia de que uma aproximação entre toda a esquerda era impossível, não admira que a estratégia eleitoral da direita passou por tentar favorecer o PCP e o BE, tentando canalizar para esses partidos os votos do descontentamento.
  
A primeira desilusão veio do BE, quando Catarina Martins anunciou o funeral do governo de Passos Coelho acenderam-se os alarmes, algo de anormal se estava a passar, a estratégia da direita de favorecer o BE podia dar maus resultados, os directores das televisões e de jornais como o Expresso e o Observador devem ter sentido um calafrio, tinham sido enganados e deram uma preciosa ajuda para derrubar Passos Coelho. Restava uma esperança, que o acordo com o PCP falhasse.
  
Cada notícia que apontava para dificuldades nas negociações entre PSP e PCP provocava um orgasmo colectivo na direita, ainda ontem um ministro que faz lembrar o da informação de Sadam dava a entender que ainda não havia acordo, o ministro da presidência ainda falava em governo para quatro anos.
  
A estratégia de Cavaco era evidente, bastava comprar alguns deputados seguristas porque mesmo ecluído do arco da democracia o PCP continuaria a fazer oposição irracional a qualquer possibilidade de governo do PS, para Cavaco Silva o PCP era uma constante, uma variável que não mudaria, o PCP vibveria na condição de ceteris paribus, sem mexer uma linha numa ideologia herdada dos finais do século XIX. Se o PCP nada mudou com a queda do muro de Berlim, com o fim da URSS, com a tentativa de golpe em Moscovo, da mesma forma que tinha resistido ao eurocomunismo, porque havia de mudar agora, logo para favorecer um António Costa a quem não se coligara na CML e com quem tinha entrado em conflito na disputa pela liderança da Junta Metropolitana de Lisboa?
  
Cavaco e Passos acreditaram que quarenta anos depois do 25 de Abril a direita poderia voltar a governar contra a vontade da maioria dos portugueses, começou a encenação do governo estável, um governo que resultaria do consenso muitas vezes tentado, que os seguristas estiveram várias vezes tentado a aceitar, a direita ditava as regras e o PS concordava a troco de algumas mordomias. Até havia quem sonhasse com a substituição de Silva Peneda no Conselho Económico e Social. Cavaco apostou tudo na divisão e destruição do PS, fez um primeiro discurso em que marginalizaza o PCP e o BE, como não chegou fez um segundo discurso próprio de um golpista.
  
Cavaco, o político falhado que nunca tinha dúvidas, que raramente se engavana, que em boa hora sempre avisou os portugueses, o vidente dos verdadeiros interesses nacionais, o marido da senhora que negociou a saída limpa com a Nossa Senhora de Fátima, o guardião dos tratados e da lei, excepto da Constituição, fez um discurso digno dos tempos idos de 1928 e estava convencido de que o PCP aceitaria ser excluído, regressando o país ás primeiras horas do 25 de Novembro, quando a direita defendia a sua ilegalização. Cavaco estava tão convencido que apostou tudo, começaram as manobras, centenas de opinion makers a martelar, ministros a dizer disparates, manobras de bastidores para conseguir adeptos da divisão do PS, associações empresariais a dar o dito por não dito e o aparecimentos de outras associações de que nunca se tinha ouvido falar.
  
Durante quase um mês o país foi intoxicado por quase toda a direita, desde a rapaziada do Observador, uma espécie de extrema-direita snob, espumava de raiva, a Manuela Ferreira Leite chamava golpe de Estado a uma maioria parlamentar, foram de dez dias PREC da direita. cada percalço nas negociações da direita gerava momentos de alegria, afirmações de que o governo era para a legislatura por parte dos empossados.
  
Hoje morreram quase todas as esperança, o PCP mudou de posição, abandonou um doma ideológico com mais um século, depois da Revolução Russa foi a primeira vez que um partido comunista dito ortodoxo mudou de posição em relação às correntes da social-democracia, no contexto europeu é uma mudança com uma importância talvez maior do que o fenómeno do eurocomunismo, não admira que velhos ideólogos da extrema esquerda hoje convertidos à extrema-direita snob se viessem a queixar nos últimos dias que o PCP já não é o que era, os que dantes lhe chamavam revisionista e mesmo social-fscistas estão agora amargurados por mais esta "deriva" e não vão perder a oportunidade de lhe vaticinar os piores destinos em consequência deste enorme salto ideológico.
  
Com esta mudança o PCP diz que o paraíso pode esperar e que as conquistas de hoje e de amanhã são importantes, decide que neste momento há valores e conquistas sociais que devem ser defendidos da sanha de uma direita que se aproveitou da crise financeira internacional para impor aos portugueses uma velha ordem, agora numa democracia gerida segundo as suas aritméticas. Só que as suas contas foram chumbadas pela prova dos nove e até as sondagens mostram que os eleitores da esquerda permanecem firmes no apoio aos programas e às lideranças dos seus partidos.
  
Desta vez Cavaco enganou-se e deverá estar agora cheio de dúvidas, o cenário que ele desprezou tornou-se real e vai ter de ser ele a dar posse ao governo que mais odeia e que tudo fez para impedir. Expirou seguro de vida da direita e com isso acabou de morrer o cavaquismo. Desde o Dia das Bruxas, o primeiro dia do governo fantasma, que Cavaco deixou de ser presidente, até que com as presidencias se possa proceder ao seu enterro Cavaco não passará de um morto-vivo, de uma alma assombrada a deambular pelos corredores do Palácio de Belém.
  
 
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